segunda-feira, 16 de maio de 2016

Reforma da reforma e o futuro do Missal de Pio V


Reforma da reforma e o futuro do Missal de Pio V


O presente artigo trata-se da tradução de uma conferência feita pelo então teólogo Cardeal Joseph Ratzinger na Abadia de Notre-Dame de Fontgombault, no ano de 2001.

A "reforma da reforma"

O professor Spaemann tem razão: a "reforma da reforma" se refere naturalmente ao Missal reformado, não ao Missal anterior. O que se pode fazer, dado que finalmente nosso objetivo comum - me parece - é a reconciliação litúrgica e não o uniformismo? Não estou a favor do uniformismo, mas naturalmente temos que estar contra o caos, contra a fragmentação da liturgia, e, neste sentido, também a favor da unidade na observância do Missal de Paulo VI. Parece-me que este é um problema prioritário: como voltar a um rito comum reformado - se se quer -, mas não fragmentado ou deixado à arbitrariedade das comunidades locais, ou de alguns grupos de comissões e de peritos? A "reforma da reforma" é, portanto, uma questão que se refere ao Missal de Paulo VI, sempre com esta finalidade da reconciliação no interior da Igreja, porque, no momento, existe uma oposição dolorosa e estamos ainda longes da reconciliação, se bem que os dias que vivemos juntos aqui são um passo importante até esta reconciliação.

Para o Missal em vigor o primeiro ponto seria, na minha opinião, rechaçar a falsa criatividade que não é uma categoria da liturgia. Se recordou mais uma vez, o que o Concilio disse realmente sobre isto: somente a autoridade eclesiástica é quem decide, não é o direito de um sacerdote ou de algumas pessoas que muda a liturgia. Mas no novo Missal encontramos com bastante frequência fórmulas como: sacerdos dicit sic vel simili modo [...] ou melhor: Hic sacerdos potest dicere [...]. Esta fórmula do Missal oficializa o direito a criatividade; o sacerdote se sente quase obrigado a mudar um pouco as palavras, demonstrar que é criativo, que atualiza em sua comunidade esta liturgia; e com esta falsa liberdade que transforma a liturgia em catequese para esta comunidade. Se destrói a unidade litúrgica e a eclesialidade da liturgia. Parece-me, portanto, que seria muito importante para a reconciliação que o Missal fosse liberto desses espaços de criatividade que não respondem a realidade profunda, ao espírito da liturgia. Se com uma semelhante "reforma da reforma" se pudesse voltar a uma celebração fiel, eclesial, da liturgia isso seria, na minha opinião, já um passo importante, porque a eclesialidade da liturgia apareceria de novo claramente.

Fonte: O catequista
O segundo tema que falei são as traduções: o canonista Rose nos disse coisas importantes, a crise é quase ainda mais grave nos Estados Unidos [desconhecia a lastimável situação brasileira!!!], no mundo aglófono, com a mudança permanente da linguagem, com o problema do politicamente correto e da linguagem inclusiva. Há comunidades nos Estados Unidos que, em nome da linguagem inclusiva, já não se atrevem a dizer "Em nome do Pai, e do Filho e do Espírito Santo" porque isso é "machismo": Pai e Filho são dois homens. Então se diz: "Em nome do Criador, do Redentor e do Espírito Santo". É somente um exemplo para mostrar a gravidade deste problema e a insistência de alguns bispos (não da Conferência Episcopal como tal) em que se utilize o que eles chamam de linguagem real; o outro já não seria, segundo eles, linguagem real. A linguagem inclusiva faz desaparecer coisas essenciais, como por exemplo, nos salmos, toda a estrutura cristológica, porque as palavras masculinas estão proibidas. Consequentemente, o problema das traduções é um problema grave. Há um novo documento da Santa Sé sobre este problema, que constitui, me parece, um avanço muito real. Queria observar isto: deveriam se conservar alguns elementos de latim na liturgia normal, uma certa presença do latim, como vínculo de comunhão eclesial, me pareceria importante.

O terceiro problema é a celebração versus populum. Como escrevi nos meus livros, creio que a celebração para o oriente, até Cristo que vem, é uma tradição apostólica. No entanto sou contra a revolução permanente nas igrejas, se reestruturaram agora tantas igrejas que voltar a começar de novo neste momento não me parece, em absoluto, oportuno. Mas se sempre houvesse sobre os altares uma cruz, uma cruz bem à vista, como ponto de referência para todos, para o sacerdote e fieis, teríamos nosso oriente, já que finalmente o Crucificado é o oriente cristão, e, sem força, se poderia - me parece - fazer isso: dar como ponto de referência o Crucificado, a cruz, e assim uma nova orientação a liturgia. Creio que esta não é uma questão puramente externa: se a liturgia se realiza em um círculo fechado, se existe somente o diálogo sacerdote-povo, estamos diante de uma falsa clericalização e a faltar de um caminho comum até o Senhor, até o qual todos nos voltamos. Portanto, ter o Senhor como ponto de referência, para todos, sacerdote e fieis, me parece algo importante e totalmente viável e realizável.

O futuro do Missal de São Pio V

Conheço muito bem a sensibilidade dos fiéis que amam esta liturgia, é também um pouco minha própria sensibilidade. E neste sentido, compreendo o que nos disse o professor Spaemann ao afirmar: se não se conhece a finalidade de uma reforma, por pequena que seja, se se deve pensar que somente é um passo intermediário até uma perfeita revolução, isso sensibiliza aos fiéis. E neste sentido, se deve ser muito prudente com as eventuais mudanças. No entanto, disse também - o destaco - que seria fatal se a antiga liturgia se encontrasse como em um congelador, como em um parque nacional, um parque protegido para um determinado tipo de pessoas, às quais se deixariam estas relíquias do passado. Isto seria - como nos disse o professor De Mattei - uma espécie de inculturação: "Também existem conservadores, deixais a este grupo sua inculturação!". Com semelhante redução ao passado, não se conservaria este tesouro para a Igreja de hoje e de amanhã. Parece-me que, em todo caso, se deve evitar que esta liturgia fique petrificada em um congelador para um certo tipo de pessoas.

Esta deve ser também uma liturgia da Igreja e sob a autoridade da Igreja; e somente nesta eclesialidade, neste vínculo fundamental com a autoridade da Igreja, pode dar tudo o que pode dar. Naturalmente, se pode dizer: já não temos confiança na autoridade da Igreja depois de tudo o que vivemos nos últimos trinta anos. Ter confiança na autoridade da Igreja é um princípio católico fundamental. Sempre me impressionou muito uma reflexão de Harnack em uma discussão com Peterson, teólogo protestante então em via de converter-se; Harnack respondeu as questões deste jovem colega: é evidente que o princípio católico Escritura e Tradição é melhor, é o princípio junto e implica a necessidade de uma autoridade na Igreja, mas mesmo se o princípio como tal, o princípio católico, é justo, vivemos melhor sem a autoridade e sem as possíveis influências desta autoridade. Tinha a confiança de que a razão livre que estuda a Escritura chegaria à verdade e que isto era melhor que estar submetido a uma autoridade que pode ter falhas. Está correto, poderá falhar, mas a obediência a esta autoridade é, para nós, a garantia de estar na obediência ao Senhor. Se adverte, sem dúvida, muito drasticamente as pessoas que exercem autoridade, de que não a exerçam como um poder. A autoridade na Igreja é um exercício de obediência. Quando o Santo Padre decidiu que a Igreja não possui a faculdade de ordenar mulheres, era um exercício de obediência a grande Tradição da Igreja e ao Espírito Santo. Para mim, foi muito interessante ver os progressistas mais radicais e os mais ferozes adversários do Magistério que nos diziam: "Não! A Igreja pode fazer isto, deveis fazer uso de vossas faculdades!". Não, a Igreja não pode fazer tudo, o Papa não pode fazer tudo. Parece-me que diante de uma autoridade que, na situação atual, se faz ainda mais conscientemente um exercício de obediência, todos podem ter, devem ter esta confiança.
Para ser mais concreto, não faria nada neste âmbito por enquanto; está claro. Mas, no futuro, deveria se pensar – parece-me - em enriquecer o Missal de 1962, introduzindo santos novos; existem agora figuras importantes de santos: penso, por exemplo, em Maximiliano Kolbe, Edith Stein, os mártires da Espanha, os mártires da Ucrânia e tantos outros, mas também nessa Bakita do Sudão, que sai da escravidão e se faz livre na fé ao Senhor; há muitas figuras realmente belas que nos são necessárias. Portanto, abrir o calendário do antigo Missal aos novos santos, fazendo uma seleção bem meditada, me parece uma coisa oportuna que não destruiria nada do tecido da liturgia. Poderia se pensar também nos prefácios, que procedem igualmente do tesouro dos Padres da Igreja, por exemplo para o Advento e outros. Por que não incluir estes prefácios no antigo Missal?

Assim, se deveria entender, com uma grande sensibilidade, com uma grande compreensão até as preocupações e medos, em contato com os responsáveis, que este Missal é também um Missal da Igreja, e sob a autoridade da Igreja, que não é uma coisa protegida do passado, mas uma realidade viva na Igreja, muito respeitada em sua identidade e em sua grandeza histórica, mas também considerada como algo vivo, não como algo morto, uma relíquia do passado. Toda a liturgia da Igreja é sempre algo vivo, uma realidade que se encontra acima de nós, não submetida a nossas vontades e a nossas intenções arbitrárias. Estes são os comentários que queria fazer.

REFERÊNCIAS

RATZINGER, J.A. Obras completas: Teologia da liturgia. Madri: Biblioteca de Autores Cristianos, 2012. 561 p. ISBN: 978-84-220-1609-0.

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